terça-feira, março 28, 2006

Diga 333

333 medidas… pelo que li hoje, bem espremidito o simplex tem muito menos sumo do que o governo quer fazer parecer… o número soa bem… mas realmente há aqui uma certa “encenação” porque se alguns ministérios condensam várias medidas numa só, outros espalham por várias medidas uma simples simplificação de formulários em várias áreas… É tipo “espalhem-se por aí para parecermos muitos “

Acho que é importante a forma como se mostram as coisas ao público. Mas o conteúdo das coisas, como é óbvio, é sempre o mais importante e um governo tem de ter muito cuidado porque se não arrisca-se a que o tiro, que se quer certeiro, volte para trás, estilo boomerang…

Este governo tem sido acusado de fazer muita publicidade… de anunciar grandiosamente muitos projectos vazios ou que não passam de «projectos de projectos» …
Para mim o marketing político é importante. Explicar o impacto, as alterações de procedimentos, as dificuldades, o porquê… os prazos de entrada em vigor das medidas… tudo muito claro, sem subterfúgios ou «esquecimentos» convenientes. É importante explicar, mas tem de se explicar tudo… tem de se ser sincero e justo. Para mim são essas as qualidades principais que um governo deve ter… Sinceridade, nas coisas fáceis e, principalmente nas difíceis, e justeza…

Discordando de algumas medidas que o Governo tem implementado e considerando que se tem dado por vezes mais importância à imagem das coisas, com nomes sempre pomposos e apelativos ao ouvido, acho que se têm procurado fazer coisas importantes, eliminando-se privilégios injustificáveis, e alguns escandalosos, e tentando-se combater o espírito do “deixa andar” e o clima de impunidade que se vivia um pouco por toda a sociedade portuguesa…

Há muita coisa que continua a funcionar mal, muitos ministérios e instituições públicas bloqueadas e com responsáveis incompetentes… muitos bois (e não boys) em turismo remunerado, muita burrocracia (não é erro ortográfico) a emperrar a eficiência…. Mas, pelo menos aos meus olhos, e admito que eles têm acompanhado a acção deste governo à distância (geograficamente falando), acho que se tem tentado agitar águas há muito tempo paradas e muitíssimo fétidas (tipo ribeira dos milagres… que, por falar nisso, continua escandalosamente a ser agredida impunemente) … não será suficiente (nunca o é), mas pode ser um primeiro passo… corajoso para alguns, cobarde para muitos dos que sofrem com as medidas tomadas, injusto em alguns casos, mas necessário em muitos outros… esperemos que tenha continuidade e principalmente os resultados que todos esperamos…

Então temos o Programa Simplex não é? Rima com clinex e pode ser que elimine algumas lágrimas de desespero provocadas pela morosidade de coisas que pareciam ser tão simples de fazer…

segunda-feira, março 27, 2006

Tomada de posse do Presidente de Cabo Verde... com estrondo





A cerimónia de tomada de posse do Cavaco Silva foi relativamente calma... a notícia maior foi a retirada rápida e estratégica do Dr. Mário Soares, sem cumprimentar o novo Presidente (com todo o respeito que tenho pelo Dr. Mário Soraes e ironizando a coisa, para mim foi uma questão de higiene... de certeza que a maioria dos convidados que apertaram a mão do Cavaco não se lembraram de antes lavar as suas própria mãos... e alguns deles deviam-nas ter bem sujinhas... só o Bush Pai... é que o sangue custa a sair...)

Aqui, a (re)tomada de posse do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, foi na quarta-feira, dia 22 de Março…… trabalho mesmo ao lado do Palácio da Assembleia Nacional onde as cerimónias oficiais tiveram lugar… muitos carros de vidros escuros, muitos militares muitos VIP… o nosso Presidente também por cá esteve numa "falconiana" (de avião tá visto) visita relâmpago…

Pelas 11 da manhã, teclava eu laboriosamente no fiel computador que desde há um ano me auxilia nas minhas funções, quando de repente……. BUMMMMMMMM!!!!!!!!!!! Um estrondo magnífico… um som aterrorizador vindo das profundezas de uma qualquer guerra… um som que até aí só estava presente na minha imaginação porque, felizmente nunca estive em nenhum cenário de guerra real… e no entanto naquele momento senti que era aquele o som real de um canhão a disparar furiosamente contra um qualquer inimigo incógnito….. BUMMMMM!!!!!!..... BUMMMMM!!!!!..... foram 7 ou oito assustadores disparos, cada qual com uma vibrante onda de choque que fez estremecer paredes, vidros… e almas desprevenidas….

Cabo Verde é um país estável politicamente…. Não há riscos de guerra civil e as forças militares são muito discretas (e mal equipadas, como tive oportunidade de constatar, mas já lá vamos) … e como os militares por aqui não têm grandes oportunidades de exercitarem os seu conhecimentos de combate (apesar de tudo vão participar nos grandes exercícios da NATO que se realizam por aqui em Julho), alguém deve ter decidido… “é pá, esta é uma boa oportunidade para desenferrujarmos os canhões… usamos munições com pólvora seca e assim a única coisa que corremos o risco de rebentar são uns quantos tímpanos”… pois!!!…

A zona da Assembleia Nacional é uma zona residencial, com muitos prédios e também várias embaixadas (China, Áustria, Portugal, Rússia e a Residência Oficial do Embaixador dos Estados Unidos)… agora imaginem o que é estar tudo a trabalhar muito descansado e de repente BUMMMMM!!!! No sítio onde trabalho o tecto é feito de umas placas de plástico que encaixam uma nas outras… algumas saíram do sítio e por entre as frestas, com o impacto dos disparos, começou a cair pó e bocadinhos de cimento… os alarmes dos carros a tocar…

Depois de terminadas as épicas salvas de canhão, tive a oportunidade de visualizar as modernas máquinas de guerra, origem de tão vigorosos disparos… meus amigos viajantes da blogosfera… aquilo fez-me lembrar duas coisas… fotografias a preto e branco (amareladas pelo tempo) da primeira guerra mundial e os soldadinhos de plástico com que brinquei em criança, acompanhados dos respectivos jipes que tinham um gancho de reboque onde se encaixavam uns canhões portáteis… pois estes canhões reais eram iguaizinhos… relíquias…

Isto podia ter provocado um sério incidente internacional… se a coisa tivesse corrido pior podiam ter rebentado com uma das embaixadas… uma autêntica declaração de guerra…O que vale é os americanos estão demasiado ocupados com a guerra do Iraque, com o Afeganistão e o Irão…por isso Cabo Verde pode esperar… os chineses têm por cá tanta gente (as lojas chinesas multiplicam-se diariamente por todos os cantos de todas as ilhas), que atacar estas terras seriam quase o mesmo que atacarem um província sua… os Russos são capazes até de ter redireccionado alguns dos mísseis nucleares para aqui (um por cada ilha) mas ainda por lá está demasiado frio para estarem a gastar energia com disparos que, no fundo, seriam inúteis… e Portugal… bom digamos que as nossas finanças não estão para guerras reais… ficamos pelas, já tradicionais, guerras verborreicas internas… e talvez o nosso ministro dos negócios estrangeiros, Freitas do Amaral, se lembrasse de propor um jogo de futebol entre as duas selecções nacionais como forma de reconciliação… agora que me lembro… vai mesmo haver esse jogo… tenho de ir ver se a embaixada de Portugal ainda está inteira….

Conhecer Cabo Verde... ilha do Fogo


Um deserto negro…. um vulcão, adormecido por agora, mas activo… a última erupção foi em 1995… passar por entre os veios de lava… a terra aí é mais fértil… por isso é exactamente aí, no sítio onde os rios de lava desceram do cimo da montanha até ao mar, que a maioria da população construiu as suas casas… é no meio desses veios negros que fazem a sua vida…

A ilha do Fogo é impressionante… é especial… tem uma mística muito própria…

A capital, São Filipe, é sem dúvida a cidade mais limpa de todas as que visitei em Cabo Verde… e isso aqui (hei-de falar dos problemas ambientais que por aqui existem) é sem dúvida uma grande virtude… E além de ser a cidade mais limpa é a que mantém os mais fortes traços coloniais… os seus fantásticos sobrados, a maioria dele muito bem conservados e recuperados, convidam a longos passeios pelas ruas do centro histórico…


...e o calor que se faz sentir na maior parte dos dias (é a cidade mais quente do país) convida a que se vá descendo até à fantástica praia de areia negra… 7 quilómetros de areia mesmo preta (é fantástico senti-la nos dedos)… a água é quente mas o mar é perigoso….

Ir subindo pela estrada… olhando o mar e a ilha Brava, escondida pelo nevoeiro (a ela voltarei qualquer dia)...

…. e chegar ao deserto negro…

lava com várias idades, vários tons de negro, vários tipos de rocha vulcânica (duas rochas do mesmo tamanho podem ter pesos muito diferentes) … andar três ou quatro quilómetros com as duas chaminés do vulcão ali ao lado, aquele cone perfeito, tão belo quanto infernal….


Chã da caldeiras… aldeia que fica dentro de uma das crateras antigas do vulcão… daí se parte para as subidas ao seu topo… uma pousada onde não há electricidade… só posso imaginar o que será passar aqui uma noite… o céu, as estrelas, o silêncio (espero em breve poder tirar a limpo o que a minha imaginação construiu) …

…uma série de míudos aproxima-se… míudos louros…. louríssimos... de olhos azuis… e Cabo-verdianos…. reza a história (lenda) que um conde Francês, Montrond de seu nome, (e suponho que louro e de olhos azuis) aqui se refugiou e deixou uma extensa prole espalhada pela ilha… os seus descendentes são muitos e mantêm os seus traços europeus…Trazem nas mãos casas de vários tamanhos, barcos e o outros objectos talhados a partir de rochas vulcânica… com telhados de palha… fabrico o mais artesanal possível… claro que os bolsos ficaram mais vazios…

Mais à frente chega-se à cooperativa responsável pela produção do fantástico vinho dos Fogo… sim, aqui no meio destas planícies e montanhas negras crescem uvas deliciosas, brancas e pretas, de onde sai um fantástico vinho, bastante forte… mas muito suave de sabor…

Depois voltar à estrada principal, que dá a volta à ilha e percorrer vários quilómetros onde se alternam e contrastam os longos veios negros de lava, de várias erupções, e as encostas verdes… mas sobre isso falarei com mais tempo… o Fogo merece...

Os olhos absorvem o negro da paisagem. Senti-me hipnotizado… é daqueles momentos na vida…

segunda-feira, março 20, 2006

Pedaços de vida... livros

Gosto de ler… mas muitas vezes tenho preguiça (novamente este pecado que me acompanha diariamente) e não consigo enfrentar as grossas lombadas dos livros que sei que gostaria de ler… Li bastante em criança… aquelas aventuras que todos gostam de ler. “Os cinco” (que fome me davam aquelas descrições de pequenos almoços e lanches ingleses), “Uma Aventura”, e as peripécias do jovem agente secreto francês Langelot (talvez menos conhecido mas muito engraçado), entre outros... Devorei-os avidamente durante as longas férias de verão de finais dos anos 80… Mas essa mini-fúria literária não teve grande continuidade e, apesar de nunca ter deixado de ler e de conhecer relativamente bem os clássicos portugueses e algumas obras também «clássicas» de escritores estrangeiros, nos últimos anos o número de livros que li contar-se-ão, talvez, pelos dedos de uma mão... vá lá, das duas mãos… E estar ao lado de pessoas que sabem muito de literatura faz-me sentir muito pequenino… mas ao mesmo tempo dá-me vontade de aprender, de ler… e por outro lado fico muito contente por saber que há muita coisa para descobrir… muita coisa que sei que vou gostar… e gostar de um livro é para mim um sensação sempre muito boa…

Quando é que eu sei que gosto de um livro? Em primeiro lugar, quando o consigo acabar de ler… se um livro não me prende, por mais que me esforce por não o deixar a meio, não me consigo concentrar nas palavras e acabo por o deixar de lado… Ultimamente, sei também que estou a gostar de um livro quando começo a pensar que aquilo daria um bom filme ou uma série de televisão (daquelas da BBC)…

Mas sobretudo sei que estou a gostar de um livro quando me sinto parte dele, quando me torno numa das personagens e sinto que estou dentro da história… E nessas alturas não quero que o livro acabe… desejo que todos os dias haja páginas novas para ler, que o sonho continue… E é para mim difícil começar a ler um outro livro imediatamente a seguir a acabar um de que gostei… deixar de viver aquela vida feita de palavras… esquecer os amigos e inimigos anteriores e absorver os novos…

Estou quase a acabar de ler um livro de que estou a gostar…. “ A Sombra do Vento” do Catalão Carlos Ruiz Zafón… a história passa-se em Barcelona… fala de livros… de amor… de sofrimentos… estou quase a acabar de o ler… sinto-me parte daquilo… e por isso tenho lido poucas páginas por dia… não quero que acabe…

segunda-feira, março 13, 2006

a oferta televisiva em Cabo Verde

....Filmes de fim-de-semana, repimpado no sofá: Dragão Vermelho (parte da trilogia em que entra o Dr. Hanibal Lecter, psiquiatra e canibal, muito bem interpretado por Sir Antony Hopkins), Sweet Home Alabama (comédia bastante simpática com a recém-oscarizada Reese Witherspoon), Solaris (com o George Clooney, remake de um filme de Tarkovsy, baseado num livro de Stanislaw Lem) … todos a preto e branco, apesar de não ser essa a sua côr original e todos com a imagem polvilhada por chuva e outra interferências...

Porquê limitar-me a ficar em casa a ver televisão em condições tão precárias? Por várias razões:

- a preguiça é muita (pecado que renovo todos os dias e que me faz sair muito pouco)…

- A escolha televisiva é muito limitada, em quantidade (4 canais) e ainda mais em qualidade…

- Não tinha visto nenhum dos filmes e por acaso até gostei (mais ou menos) de todos… não me aborreci… mas o SOLARIS não é filme para se dar áquela hora…

- o preto e branco, a chuva e as outras interferências têm a óbvia justificação de má captação do sinal… já explicarei de onde é emitido...

Desenvolvendo mais...

Ter acesso a uma escolha variada de canais de televisão faz-me falta. Sempre gostei muito de ver televisão. Principalmente filmes e séries. E o zapping (muito censuravelmente, eu sei) é o desporto que mais pratico desde há largos anos… aliás o único sítio onde hoje tenho os músculos desenvolvidos e saudáveis é nos dedos que mudam os canais…

Estando em Cabo Verde, mais concretamente na Cidade da Praia, sozinho, não conhecendo muita gente e tendo uma oferta cultural limitada e muito pouco visível e divulgada, não fico com grnades alternativas à opção «vegetar em casa»… ainda para mais nos últimos meses fiquei sem carro (por hibernação invernal forçada) …. Prucurar sair com outras pessoas seria a melhor solução mas as minhas capacidades (e vontade, admito-o) de socialização não estão no pico da sua forma e por isso os convites e oportunidades não abundam… E sair sozinho, por várias razões que não vêm para o caso, tb não tem sido uma alternativa.

Por isso a televisão, o rádio e a fono-biblioteca com que me apetrechei antes de vir para cá são a minha companhia diária… Ora, para quem tem feito uma vida casa-trabalho-casa (isto nos últimos meses porque ao longo deste último ano visitei as 9 ilhas habitadas do arquipélago e fiz inúmeros passeio pela ilha onde tenho a minha base) ter apenas uma escolha de 4 canais de TV é bastante aborrecido…

Que é que querem?! um gajo habitua-se rapidamente à fartura e esquece-se das vacas magras (em termos audiovisuais é claro) com que viveu até ao início dos anos 90…

Então, por aqui temos:

TCV (televisão de Cabo Verde) – levanta-se com o pôr-do-sol e deita-se com as galinhas… por volta das onze da noite já está a dar o hino nacional com a bandeira em fundo… Mesmo assim tem uma programação razoável… tenho visto vários filmes recentes, às 6as e Sábados, e ultimamente, num surto de cinefilia clássica para o qual temo que encontrem rapidamente uma cura, têm passado filmes como o All about Eve (EVA), o Terceiro homem (de e com o Orson Wells) e vários filmes do Visconti… muito bom… Passam os jogos de Futebol dos “grandes “ de Portugal e das eliminatórias da Liga dos Campeões…

RTPÁfrica – Alguns bons documentários, os mesmos telejornais da RTP 1 e RTPN, um jogo de futebol por semana, o repórter África, e pouco mais… podia ser muito melhor, mas na minha opinião não é tão má com ouço a maior parte das pessoas dizer…

TV5 Monde (canal público Francês) – Muitos documentários bons, alguns concursos interessantes, telejornais completos, Liga dos campeões e campeonato francês…. Muito elitista, principalmente no tipo de debates… mas melhor que a RTP África…

Canal do Filú– O presidente da câmara da Praia (Felisberto Vieira mais conhecido por Filú) instalou há uns tempos em vários pontos da cidade umas parabólicas que retransmitem o sinal da TVCABO portuguesa… mas só de um canal. Normalmente vê-se a SIC mas nem sempre… depende da vontade de quem controla o Sistema… De vez em quando estou a ver um filme e…. o canal muda e lá me levanto eu a pensar que estou sentado em cima do comando… mas não… quem está do outro lado e controla o receptor do sinal de satélite, se não está a gostar da programação, muda de canal… tiranias televisivas…

E é tudo… Não são raras as vezes em que dois dos canais dão o mesmo jogo de futebol (outro dia eram três a dar o jogo do Benfica com o Estrela da Amadora e o outro dava um debate sobre as origens da filosofia... e eu não estava propriamente virado nem para uma coisa nem para outra)

Quem só tem antenas normais consegue captar estes canais, com uma qualidade variável consoante a zona da cidade. Muita gente, com uma parabólica, tem acesso a todos os canais da TV CABO Portuguesa, devidamente pirateada… mas quando a parabólica não é gigantesca (mais de 2 metros e meio) só se apanha o sinal até à meia noite , voltando depois lá pelas 5 da manhã (não percebo porquê já que, teoricamente, estes satélites são geo-estacionários, não é ?). Cabo Verde move-se ao sabor das marés...

Mas não tenho a sorte e o luxo de ter parabólica ( e é mesmo um luxo porque mandar instalar uma custa perto de 2000€)... Mas já chega destas queixas burguesas... devia ter vergonha de falar destas coisas estando onde estou... além disso, que todas as minhas queixas possam continuar a ser só estas...


sexta-feira, março 10, 2006

Pedaços de Música... as minhas referências

Gosto muito de música…
.... gosto de dedilhar a minha guitarra, fechar os olhos e ver o que sai (while my guitar gently weeps)…

O meu ouvido foi ( não voluntariamente mas muito bem) educado por gente como Tom Waits, Laurie Anderson, Sérgio Godinho, The Smiths, Triffids, Anne Clarke, Penguin Café Orchestra, entre muitos outros, que para um rapazito de 6, 7 anos, não seriam as mais óbvias escolhas musicais (apesar disso também vibrei com Maria Armanda e o mítico “Eu vi um Sapo”, e com as excelentes adaptações de obras da música clássica pela célebre “Ana Faria e os Queijinhos Frescos”)…

A melomania de que sofro hoje, consequência também de ter relutantemente (relutância de que me arrependo hoje profundamente) estudado ( e esquecido) piano, foi-me sobretudo transmitida por um irmão, 11 anos mais velho, que me abriu muitas portas... mas que até há relativamente pouco tempo, eu apenas tinha deixado entreabertas… o Tom Waits, pelo menos o mais áspero, custou a entrar, da Laurie Anderson ainda hoje apenas gosto de algumas músicas, talvez mais acessíveis… Frank Zappa ainda não entrou mas, etc, etc…

Hoje dou por mim a relembrar todas essas improváveis referências para um imberbe míudo e a juntar à descoberta de novos grupos como a Belle Orchestra, Gomez, Calexico, Lhasa de Sela, Árcade Fire, Richard Swift, etc, etc, uma ávida recuperação desse baú de músicas que timidamente estavam guardadas nas minhas memórias…

Não posso dizer que os meus gostos musicais tenham evoluído assim muito… a minha adolescência foi passada, já de forma mais independente, a ouvir Guns n' Roses, Nirvana, Smashing Pumpkins, Pearl Jam (os meus preferidos) ,etc… tudo bandas de que eu ainda hoje gosto muito e que muitas vezes acompanho à guitarra em concertos imaginários…

Acho é que com os anos fiquei mais aberto a um tipo de música não tão imediata, que se tem de absorver muito bem, em que se tem de pensar e não só ouvir… e hoje é mesmo esse tipo de musica que mais me faz companhia…Hoje, e cada dia mais, entro com vontade nessas portas entreabertas… e descubro ou redescubro pedaços fantásticos de música…

E agora, aqui em Cabo Verde, vou também conhecendo a música local, principalmente as famosas mornas e coladeiras, que têm uma riqueza instrumental e literária enorme… São o fado caboverdiano… aliás o fado português tem muito a ver com as mornas… e vice-versa…

A música é uma boa companhia…

quinta-feira, março 09, 2006

E afinal estou mesmo em África...

Vinda da África Continental, uma névoa de areia, qual tempestade no deserto, abateu-se hoje sobre Cabo Verde cobrindo estas belas ilhas com um manto castanho que se entranha em todo o lado… chamam-lhe Bruma Seca e está a deixar-me o sistema respiratório entupido… um cheiro constante a pó paira no ar e a visibilidade é muito reduzida (provavelmente os aviões têm ou terão de ficar em terra) … não se vê uma ponta do céu e parece que há um filtro amarelo nos olhos (no meu caso nos óculos)… é como se tivesse acordado com o nascer do sol e ele não se tivesse movido desde essa altura… um amarelo suave constante…

É um fenómeno habitual por aqui mas vem um mês atrasado… dizem-me que pode durar vários dias e que cria muitos problemas a quem tem problemas respiratórios… pois se eu que não os tenho (até ver) sinto a garganta arranhada e estou farto de espirrar…

Ouvi contar também que os pescadores que se aventura no mar em dias como este, muitas vezes perdem-se e vão dar... aoBrasil…

Serve para me lembrar que não é por aqui não haver grandes desertos escaldantes e animais exóticos e perigosos que isto não é África…

Grande Vitória!!!

Sou do Benfica. Nem sempre fui… mas devia ter uns 3 ou 4 anos quando passei a dar mais atenção ao futebol e um amigo «fez-me ser» do Benfica. Não sou sócio… não vou ao estádio (fui duas vezes ao antigo, para dois jogos das competições europeias contra equipas daquelas em que o interesse era saber por quantos se ia ganhar)… hoje já não vivo os jogos como vivia mas às vezes ainda sofro e continuo a gostar de ver um bom jogo (em Portugal não há muitos)…

Lembro-me de ter que me deitar cedo, porque andava no ciclo e tinha aulas às 8 da manhã, mas ficar a ouvir no rádio, deitado, o relato dos jogos europeus… das chamadas grandes noites europeias… que o Benfica invariavelmente ganhava… lembro-me das finais europeias perdidas contra o Milão e PSV Eidhoven… lembro-me das grandes equipas até ao início dos anos 90… e lembro-me de sentir que de ano para ano o Benfica era cada vez menos a grande equipa de que eu me lembrava e que me fez gostar de futebol… Os escândalos sucederam-se, não sei quantos treinadores, não sei quantos jogadores, não sei quantos presidentes…

Hoje em dia parece-me que só de vez em quando é que sinto o Benfica jogar “ à Benfica”, com garra, com verdadeira vontade de ganhar…

Costumo dizer que não me importo que o Benfica perca desde que os jogadores deixem a pele em campo… que lutem até ao fim… e isso às vezes (muitas nos últimos anos) não acontece… ou pelo menos parece… e por isso já não vibro como antes…


MAS HOJE O BENFICA VOLTOU A SER O BENFICA QUE EU ME LEMBRO E QUE ME FEZ ADORMECER TANTAS VEZES JÁ A SONHAR…. Hoje voltaram as grandes noites europeias… Hoje todos os jogadores jogaram bem (tirando talvez o Laurent Robert que me pareceu sempre perdido) … lutaram, deram o corpo às bolas, tiveram cabeça para não chutar a bola para qualquer lado… e procuraram ganhar… e ganharam… foi uma grande vitória… com sorte? Claro que sim! Mas uma grande vitória…

quarta-feira, março 08, 2006

Pedaços de música… Ali Farka Touré


Morreu Ali Farka Toure. Talvez este nome não diga nada a muitos… Era agricultor no Mali. Ninguém sabe exactamente a data do seu nascimento… Teria 67 anos… Era um grande músico africano… auto-didacta… multi-instrumentista… e criador de fantásticos pedaços de musica… Viveu sempre no Mali, na sua terra... foi aí que gravou a maioria dos seus discos… e considerava-se sobretudo um agricultor… para ele o talento para a música era um dom que os deuses lhe tinham oferecido… algo (sobre)natural…

Conheci a sua música há pouco tempo… acho que a primeira vez que o ouvi foi quando estava a ver um filme... a Residência Espanhola… depois fui descobrindo os seus discos… pedaços fantásticos de música…

Nos últimos anos, já bastante doente, era raro sair do Mali…Li hoje no Público que deu o seu último verdadeiro concerto em Portugal… em Julho do ano passado… ao ar livre, em Monsanto… eu, estava por aqui… em África… há pouco tempo tinha(s) pensado em ir(-mos) ao Mali visitá-lo… agora será ele a ter de nos visitar com a sua música… sempre que quisermos…


(Deixo aqui uma entrevista que encontrei neste site. Para o conhecermos um bocadinho…)

Não foi fácil falar com Ali Farka Touré. Não é todos os dias que este senhor de 60 anos tem acesso a um telefone, no Mali; e nem sempre é fácil compreender o seu francês, falado com longas pausas (próprias de quem se levanta com o nascer do sol e se deita com o crepúsculo) e frases nem sempre concretizadas. Afinal Ali Farka Toure, além de excelente músico, é um verdadeiro homem do campo.

O Mali é um país de músicos - Você, Oumou Sangare, Toumani Diabaté, Salif Keita. Será que isso tem a ver com o facto de ao longo de séculos vigorar a cultura musical griot (N.R. músicos que tocavam para os imperadores do Império Mandinga de origem muçulmana que se estendeu pela África Ocidental a partir do Sec XIII)?

O Mali não é um país de músicos, mas há músicos no Mali. É um país histórico onde existem etnias distintas. Eu sou sonrai, estou longe de ser griot e de ser escravo. Aqui não existem fronteiras. Cada pessoa traça o seu destino ao fazer música. Para mim a música é uma filosofia de educação e de amor.

É verdade que, à semelhança de Salif Keita, os seus pais opuseram-se ao facto de tocar, pelo facto de fazer parte de uma classe nobre?

Os meus pais eram realmente contra o facto de eu ser músico. Durante a minha carreira sempre tive receio de pegar na guitarra enquanto me encontrava ao pé da minha mãe. É que antes de ser músico já era agricultor e pilotava barcos. Profissões mais úteis à nossa etnia.

Apesar de ter tido uma carreira brilhante como músico fora do Mali, nunca deixou de ser agricultor. E parece que foi o dinheiro que ganhou com a música que lhe permitiu comprar máquinas modernas para melhor fazer a lavoura. Verdade?

Sim. Toda a vida estive ligado à agricultura e todo o dinheiro que ganho com a música tenho investido na agricultura. Não devemos pôr açúcar no mel (N.R.: metáfora que significa não devemos aplicar o dinheiro que ganhamos com a música, na música) porque isso daria uma mistura demasiado doce. A música permitiu a evolução do meus métodos de trabalho agrícolas. Até porque não podemos fazer música se não tivermos a barriga cheia, não é?

Parece-me que continua a preferir a agricultura à música.

Sim, porque a agricultura é uma cadeia de vida. Os animais comem, os homens comem. Sustenta um ciclo maior que a música. Esta é boa apenas para quem toca e escuta.

Vivendo numa vila (Niafunké) situada à entrada do Sara, em que os terrenos são muito arenosos, gostaria de saber o que é que planta.

Vivo perto do deserto, mas também perto do rio o que me permite ter terrenos férteis. Aqui posso plantar tudo o que preciso: trigo, milho, feijões, batatas, mangas, goiabas, tangerinas, laranjas, papaias… e, claro, também pesco.

Não tem dado muitos concertos fora do seu país e por diversas vezes anunciou retirar-se da vida artística. Isso tem a ver mais uma vez com a agricultura, ou com o cansaço das digressões?

Não digo que não dê concertos, mas preciso em primeiro lugar terminar todas as culturas, todos os trabalhos agrícolas. Não posso permitir-me a fazer aquilo que fazia há 10 anos atrás, altura em que comecei a tocar pelo mundo inteiro e a estar muito tempo fora de casa. Tenho 11 filhos, sou avô de 8 crianças, tenho muitas bocas para alimentar. Ainda viajo, mas só durante uma semana. O máximo é um mês. Depois volto.

Nunca sentiu vontade de viver na Europa, à semelhança de muitos músicos africanos?

(um grande assobio, como se isso fosse totalmente impossível). Nunca. Não gosto do estrangeiro, gosto de fazer o meu trabalho e de regressar à minha casa no fim do dia. Adoro o espaço, a terra, nunca poderia viver num apartamento. Tenho de estar perto da natureza.

Quando colaborou com o Ry Cooder em “Talking Timbuktu” sentiu que tivesse aprendido alguma coisa?

Não. Nada.

E o que é que você lhe ensinou?

Ensinei-lhe algumas coisas, quanto mais não seja o facto de ter descoberto a essência da música africana. Ele vem ao Mali em breve, no ano 2000, e ficará cá durante duas semanas.

Pensa que o Taj Mahal e o Ry Cooder têm ainda muito a aprender consigo, sobretudo na forma de tocar guitarra?

Entre o Ry Cooder e o Taj Mahal existem muitas diferenças. Durante os anos em que viajei pela Europa e Ásia, o Ry Cooder tornou-se num génio da música ocidental. É um dos melhores para mim, porque faz aquilo que deve ser feito. É a sua vida. O Taj Mahal é um professor, não meu, mas dos jovens que ensina. Tenho muito a aprender mas não há-de ser com ele. Nós somos de etnias diferentes, temos culturas diferentes, almas diferentes. Mas ele é muito aberto e generoso e isso agrada-me. (N.R: apesar de Taj Mahal ter nascido nos Estados Unidos, Ali Farka Touré considera-o um africano a viver na América, devido ao sistema de crenças em que acredita, cujos antepassados traçam as origens do ser humano).

A sua música é influenciada por experiências espirituais. Segundo consta, o Njarka (pequeno violino local de uma corda) é um instrumento bastante perigoso, porque quando mal usado pode evocar os maus espíritos. É capaz de explicar?

O Njarka é o instrumento mais perigoso de África e do Mundo. Quem o toca nunca poderá aspirar a ter grande longevidade. É um bom instrumento e ao mesmo tempo um mau instrumento, porque quem não tem cuidado pode ficar louco. Conheço muitas pessoas que enlouqueceram. A primeira vez que peguei no Njarka tinha 12 anos, nessa altura ao brincar com o instrumento quase morri. O Njarka deixou-me imobilizado e fui picado por uma cobra.

Pensa que a música é uma forma de chegar ao mundo espiritual?

Não acho. Tenho a certeza. É como entrarmos dentro de água, num mundo real que não é totalmente visível aos nossos olhos.

segunda-feira, março 06, 2006

Pedaços de arte...













Concordo com o George Clooney quando ele ontem no discurso de agradecimento do seu Óscar disse qualquer coisa como isto “a menos que todos os actores nomeados tivessem interpretado o mesmo personagem, acho muito difícil estar a comparar-se os nossos desempenhos em papéis tão diferentes…” e “ não sei como é possível comparar pedaços de arte…”

Para mim a cerimónia dos Óscares sempre valeu mais como espectáculo de entretenimento do que como celebração dos melhores do ano em cinema… isso para mim é demasiado subjectivo para ser avaliado… e a votação está viciada à partida, principalmente a partir do momento em que vamos conhecendo a forma como a maioria dos membros da academia vota, mais em função das amizades do que da qualidade das interpretações… muitos dos votantes nem vêem os filmes…

O que eu gosto, admito-o sem problema, é de ver aquela fogueira de vaidades…Gosto de ver os actores a interpretarem-se a si mesmos… tentar conhecer um bocadinho mais das suas reais personalidades… perceber se, como pessoas, valem mais do que terem uma cara bonita... ou se o seu possível valor interior se perde com as emoções que deitam cá para fora quando estão a representar…

Gosto de ver todo o aspecto cénico à volta da cerimónia… as revisões dos filmes antigos, recordar quem vai desaparecendo, dos momentos de humor… o momento que mais gostei de ver, de todas as cerimónias de Òscares a que assisti, foi no ano (não me lembro qual), em que o Cirque du Soleil interpretou em palco vários momentos de filmes clássicos, desde o Metrópolis do Fritz Lang, Super Homem, Homem Invisível, Tigre e o Dragão… foram uns 4 ou 5 minutos fantásticos que mereceram com toda a justiça uma ovação de pé de todos os presentes… foi um momento mágico… como todos os filmes de que gosto são também para mim (hei-de ir falando de alguns)… fazem-me sentir algo, tristeza ou alegria, não importa, fazem-me sentir…

A noite dos Óscares… gosto muito de cinema… devoro filmes… gosto muito principalmente de filmes das décadas de 30, 40 e 50… ás vezes sou até fundamentalista ao dizer que certos argumentos dos filmes de hoje nas mãos dos principais realizadores dessas décadas (Vidor, Houston, Ford, Mankiewicz, HAwks, etc) dariam filmes muitíssimo melhores. No cinema actual os efeitos especiais sobrepõem-se cada vez mais às ideias. E eu até gosto muito de filmes fantásticos mas sempre com efeitos especiais a servirem as histórias… por isso gostei muito do Senhor dos Anéis e não gostei tanto dos últimos filmes da Guerra das Estrelas que perderam muito do encanto dos primeiros 3 filmes …

Mas é óbvio que se continuam a fazer grandes filmes…. Grandes ideias, grandes actores… grandes histórias bem contadas…

Acho sempre muito difícil comparar objectos artísticos, sejam eles músicas, pinturas, filmes… por isso acho que prémios como os Óscares, envolvem sempre uma grande parte de injustiça… Mas gosto de ver…

ironicamente, no ano em que parece que os filmes nomeados são mais alternativos (acho que só vi o Fiel Jardineiro) e com mais substância, não posso ver a cerimónia…. Por aqui (pelo menos por enquanto) a minha escolha televisiva é muito limitada…. Estou a ouvir a transmissão da antena 3 através da internet… “ Good night and good luck”...

sábado, março 04, 2006

Conhecer Cabo Verde - Parte II


10 minutos de avião a partir da capital… em dias claros, da parte este de Santiago avista-se o recorte da ilha do Maio e adivinham-se as cores da sua paisagem…



Aterra-se num pequeno aeroporto que só abre nos dias em que o avião chega (2as, 4as e 6as)…. Em volta o castanho claro dos campos, algumas árvores (acácias americanas que aguentam bastante bem a falta de água) e ao longe distinguem-se alguns animais (cabras e burros) que nunca desistem de tentar encontrar algo mais suculento que o po di terra e ramos secos.


O Maio será talvez a ilha mais pobre de Cabo Verde. Mas é uma pobreza que não choca. É uma pobreza que se funde com a paisagem árida e que cria com ela uma harmonia muito bonita…. E a verdadeira riqueza aqui, como em todo Cabo Verde, está nas pessoas, nos seus olhos acolhedores e nos seus traços duros mas muito abertos… toda a gente diz “ olá, bom dia”…


alugar um carro, uma velho jipe Lada Navara, ( só guiá-lo foi uma aventura com uma marcha atrás que nunca entrou à primeira e um banco dançarino que me deixava muitas vezes longe dos pedais) e partir à descoberta… a ilha atravessa-se de uma ponta à outra em 45 minutos… estradas de paralelepípedos de rocha vulcânica…. Rectas extensas por entre campos secos… e depois, sair da estrada principal em busca das praias...


E que praias… quilómetros de areia, ora completamente branca ora pintalgada por traços negros… olhar para um lado, depois para o outro… nada… ninguém… olhar em frente… e ver aquele mar azul turquesa… aquele mar que se sonha…

quarta-feira, março 01, 2006

pão, essa iguaria cheia de surpresas


Numa das primeiras vezes que fui a um restaurante aqui na Praia, como bom português que julgo ser, pelo menos gastronomicamente falando, vendo que não havia pão na mesa (que pecado) pedi para me trazerem uns pãezitos…

Pão? – pergunta a simpática rapariga encarregada de satisfazer todos os pedidos gastronómicos (seguindo a ementa tá visto) de quem procura calar a fome - É português não é?...

Pois… havendo dúvidas na minha nacionalidade, não desfeitas por estar a falar o que, julgo ser, bom português (falar português por aqui não é sinónimo de se ser da respectiva nacionalidade porque muito bom estrangeiro, que não lusitano, fala ou pelo menos balbucia alguns vocábulos nessa bela e rica língua), o facto de ter pedido pão para uma refeição que não o pequeno-almoço ou lanche (talvez para uma ceia mais tardia também seja normal) denunciou logo, sem qualquer sombra de dúvida, a minha proveniência…

Realmente, pelo menos aqui na capital, é difícil encontrar pão igual ao que se faz em Portugal… Normalmente o pão que se encontra é sempre muito “plástico” e não tem aquela consistência e sabor que o torna, em Portugal, presença obrigatória em qualquer mesa (se bem que já ouvi alguns portugas dizer que comer pão à refeição é hábito de pobre… )

Até que ouvi falar de uma padaria, que por sorte fica bem perto do sítio para onde vim morar, que fazia pão muito parecido com o que se faz em Portugal… e lá fui em busca dessa iguaria… e realmente o pão é bom. Chamam-lhe aqui pão rústico e desde que o descobri tem-me acompanhado em todas as refeições. O problema é que é feito com uma farinha especial que já por várias vezes faltou e nessas alturas não o vendem durante alguns dias… mas resolvi esse problema comprando 8 ou 9 pães de cada vez e congelando-o… não se nota a diferença…

Entre os últimos pães que comprei vinha um demasiado cozido para meu gosto e decidi que era logo o primeiro a marchar… comi metade a acompanhar o jantar e já no fim da refeição, enquanto via televisão, começo a tirar bocadinhos de miolo (uma mania que tenho) e os meus dedos tocam em qualquer coisa que não tinha a consistência normal do miolo de pão. Olho e vejo uma linha mais branca que percorria toda a largura do pão… abro o pão e… afinal não era um pão mais mal cozido que o costume… afinal era uma espécie de bolo rei, sem frutas cristalizadas nem passas, mas com um grande brinde… de plástico, fininho e com aspecto de ter pertencido provavelmente a uma espécie de espátula que o padeiro deve usar para fazer o pão… ainda deve estar a perguntar quem é que partiu o seu fiel e indispensável instrumento de trabalho e onde é que está o bocado que falta… por sorte não lhe dei uma trinca… meus ricos dentes… vou guardá-lo com todo o cuidado…

…e como deixar de comprar este tipo de pão está fora de questão vou ver se arranjo uma daquelas máquinas de raio-x dos aeroportos, para inspeccionar cada pão antes de o comer…